sábado, 14 de outubro de 2017

MOVIMENTAÇÃO SUSPEITA

Essa história aconteceu de verdade com os vigilantes da UFFS.
            Era uma noite como outra qualquer. Não havia mais alunos, nem professores, nem técnicos. A equipe de vigilantes preparava um chimarrão para enfrentar o frio que já se ia anunciando no vento lá fora e nos uivos que escapavam pelas frestas. Todos eles vestiam seus casacos, não tanto por sentirem frio, mas como forma de conterem arrepios ocasionais. A lua estava em crescente, dando alguma luz, mas não muita.
            A meia-noite passara há muito tempo e um dos vigilantes que tinha saído em ronda estava demorando. Os outros dois começaram a se perguntar se alguma coisa tinha acontecido: “Pelo tempo, dava para fazer duas rondas”. Nos segundos que se passaram, a respiração de ambos podia ser ouvida. Foi quando o barulho do rádio despertou a ambos: “Base na escuta?”. O susto foi apenas momentâneo, muito mais devido ao vento do que ao rádio. “Base na escuta. Câmbio”, “Preciso de ajuda aqui. Vi movimentação atrás do laboratório três, mas minha lanterna não está funcionando.”, “Mas quer ajuda para quê?”, “Venha alguém, rápido”. O rádio emudeceu.
            Os dois vigilantes da base olhavam sem reação para o aparelho. Não que estivessem esperando uma nova chamada, mas o modo de falar do colega demonstrava apreensão, angústia, medo, talvez. Eles se olharam e, sem qualquer palavra, perguntavam qual dos dois iria ajudar o outro. Não podiam ficar ali muito tempo sem reação, pois algo grave poderia estar acontecendo atrás dos laboratórios com o colega.
            O mais destemido ou, pelo menos, o menos nervoso pegou sua lanterna, testou antes, e foi em passo acelerado pela passarela traseira do Bloco A, rumo ao Laboratório 3.
            Com sussurros, foi chamando o colega, apontando o facho de luz para o chão, para não chamar muito a atenção. Nos fundos do prédio, encontrou o outro vigilante, totalmente encostado à porta de vidro dos fundos, como se quisesse atravessá-la só com apertar-se contra ela. Seu olhar estava petrificado, encarando a mata que despontava por trás da Central de Reagentes. Ao ser perguntado o que aconteceu, gaguejou algumas palavras soltas: “Era uma vaca... Ou cavalo... Era grande... Passou... Lá... A lanterna...”
            O colega tentou acalmá-lo. Podia ser apenas a imaginação, devido ao vento ou à luz fraca da lua, enfim, deveria haver uma explicação racional. Pensando que era dever deles, como vigilantes, garantir a segurança do patrimônio da universidade, respiraram fundo e os dois foram andando até o limite da mata, agora com a lanterna em punho, apontada diretamente para as árvores próximas.
            Só se conseguia ouvir o vento deslizando nas folhas, a grama sendo amassada pelas botas e as batidas frenéticas dos corações deles. O círculo amarelado da lanterna movia-se de um lado para o outro, tremendo (“é o frio, é o frio”). Não havia movimento, nem sinal suspeito.
Alguns minutos depois, já menos apreensivos, concordaram em voltar à base.
Quando deram meia-volta, ouviram o barulho de cascos, como se três ou quatro cavalos estivessem galopando na direção deles. Acompanhado disso, alguma coisa que parecia um choro não humano, ou talvez uma risada, ou a mistura das duas coisas. Não tiveram dúvidas: as portas do laboratório estavam todas fechadas, tudo estava seguro, menos eles... então correram no desespero de mil pernas, a lanterna abandonada, o Bloco A parecendo estar a quilômetros de distância.
Voltaram à base, mal conseguindo respirar. O vigilante que tinha ficado lá, vendo o estado dos colegas, esperou para poder perguntar o que houve. Eles explicaram por alto, sem saber direito o que havia para explicar. O outro arregalou os olhos. “Então é verdade o que contam...” Os dois pararam de falar e o encararam, pedindo que continuasse: “Dizem que aqui na região, há muito tempo, havia pessoas que faziam torturas contra os moradores daqui. Era coisa bruta. Pegavam uma pessoa e quatro cavalos, um para cada braço e perna. Aí davam chicotadas nos bichos, indo um para cada direção. Dizem que esses corpos nunca mais eram encontrados...”
Os três se entreolharam. Aquele que foi primeiro levantou-se, pegou o livro de ocorrências para escrever a ata e segurou a caneta. O que escrever? “Diga que achou que viu uma movimentação suspeita atrás do laboratório três, foi até o local e não encontrou nada”, “É melhor assim...”.

Essa história aconteceu de verdade com os vigilantes da UFFS.

Depois daquela noite, as rondas feitas durante a madrugada se tornaram muito mais rápidas, especialmente atrás do Laboratório 3. E, se alguém reparar na ata que o vigilante redigiu, perceberá que a expressão “movimentação suspeita” foi escrita com uma letra tremida.

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