domingo, 18 de março de 2018

O QUINTO ANDAR


            Essa história aconteceu de verdade com um estudante de Medicina Veterinária da UFFS.
            Não há muito o que se fazer na Universidade, quando não se está nas salas de aula. Pode-se ir à biblioteca, ficar conversando nos bancos, olhando as pequenas coisas que vão se sucedendo no tempo parado.
Com o ônibus vindo somente ao final da tarde, com as aulas já encerradas e sem nenhum colega por perto, o estudante pensou em matar os minutos jogando pingue-pongue na salinha que montaram no quinto andar. Talvez o saguão deserto fosse apenas indício de que alguns alunos estariam lá.
Subiu todas as escadas, deu três leves batidas no corrimão, antes de chegar à última porta. Do lado de dentro, podia-se ouvir o barulho característico da bolinha de pingue-pongue batendo, então ele animou-se e girou a maçaneta. A porta abriu e, ao invés de encontrar duas ou mais pessoas jogando, encarou apenas um silêncio pesado e um feixe de luz projetado, com partículas de poeira dançando.
            Andou devagar para dentro, apenas para certificar-se de que não havia ninguém mesmo, quando, na direção do canto direito, começou a se fazer ouvir, muito baixo, quase como um sussurro, um choro ou, pelo menos, um lamento muito triste. Arriscou mais alguns passos, e foi quando viu, semiocultada pela parede, agachada, uma mulher usando roupas brancas, com as mãos postas sobre o rosto coberto pelos compridos cabelos pretos.
            Com certo temor e receio de ser incomodativo, aproximou-se para saber se ela precisava de ajuda. Ela ergueu-se de repente e gritou: “Sai!”. As mãos da mulher se afastaram, revelando um rosto que estava totalmente machucado, escurecido. A boca era uma chaga aberta, sem dentes. Os olhos, dois poços nos quais nenhuma luz entrava ou se refletia.
            O susto do rapaz foi tão grande que desceu a escada de quatro em quatro degraus. Tropeçou e rolou, batendo a cabeça na parede e ficando com o rosto virado para a porta do quinto andar. Muito devagar, como se usasse o intervalo de várias horas, um braço branco, tomado por veias azuis, esticou-se e foi fechando aquela porta, sem qualquer ruído.
            Ainda tonto da queda, o estudante desceu mais um andar, quando achou dois vigilantes, que subiam para verificar o tinha sido aquele barulho. Falando coisas desconexas, “uma mulher... bolinha... gritando... cabelos”, apontou para a porta e afastou-se do caminho.
            Os vigilantes abriram a porta com cuidado, abriram as janelas, vasculharam os cantos todos, mas nada encontraram. Quando um deles estava saindo, sem querer, chutou uma bolinha de pingue-pongue que estava no chão, e ela foi quicando os degraus todos, num ritmo sereno e inocente.

            Essa história aconteceu de verdade com um estudante de Medicina Veterinária da UFFS.
Os vigilantes ficaram desconfiados, mas não deram muita importância ao fato. Possivelmente o rapaz estava imaginando coisas. Mas ele, por via das dúvidas, a partir desse dia, resolveu passar o tempo e exercitar suas habilidades em partidas de xadrez, mais calmas, sem sustos e, principalmente, no térreo.


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